Por que esse golpe está se multiplicando?
Nos últimos meses, aumentaram os relatos de clientes que recebem mensagens de WhatsApp com a foto e o nome do advogado (ou do escritório) anunciando “vitória no processo” e “liberação de valores”. A estratégia é simples: criar credibilidade com elementos reais (nome, imagem e até detalhes de ações judiciais) e, em seguida, conduzir a vítima a fornecer informações bancárias e executar passos no aplicativo do banco.
A Febraban tem alertado publicamente para esse padrão de fraude, destacando que os criminosos costumam pedir informações sensíveis e criar sensação de urgência, e lembrando que a Justiça não cobra valores antecipados para liberar indenizações. O problema se agrava porque muitos clientes têm processos em andamento e, portanto, estão emocionalmente suscetíveis a mensagens que prometem “pagamento imediato”.
O golpe ganha ainda mais força quando o criminoso usa linguagem de autoridade, citando “setor financeiro”, “tribunal”, “promotor” ou “servidor responsável”.
O modus operandi: o que o fraudador realmente quer
O roteiro costuma seguir três movimentos. Primeiro, o criminoso “abre a porta” com uma história de vitória judicial e pagamento prestes a ser liberado. Em seguida, pede dados bancários sob uma justificativa aparentemente formal, como “anexar aos autos” ou “confirmar conta para depósito”.
Por fim, ele tenta levar a interação para uma videochamada e/ou compartilhamento de tela. Essa etapa não é detalhe: é ali que a fraude se materializa, porque a vítima, acreditando estar “validando” algo, é induzida a inserir códigos, autorizar procedimentos no Pix, alterar limites ou confirmar ações dentro do aplicativo do banco.
Esse exemplo é emblemático: em um caso real, a cliente estranhou porque, no caso dela, a empresa requerida sequer havia sido citada. Ainda assim, o golpista pediu dados bancários e perguntou se ela podia fazer videochamada. Essa insistência em “ver você ao vivo” e “acompanhar sua tela” funciona como ferramenta de engenharia social para acelerar decisões e reduzir a chance de a vítima parar para checar a informação.
Sinais práticos para você identificar antes de cair no golpe
Quando a mensagem chega, alguns sinais devem acender alerta imediato. Em geral, há pressa: “precisa ser agora”, promessa de liberação “ainda hoje”, pedido de extrato e dados completos, convite para videochamada, orientação para “colar código” no Pix, ou narrativa de que existe um “procedimento do tribunal” a ser seguido. Esse conjunto de elementos aparece com frequência nos alertas institucionais sobre o golpe do falso advogado.
Um ponto decisivo para o leitor: o golpista costuma acertar no “tom” da conversa, porque usa o nome e a imagem de profissionais reais e se apoia em fatos públicos do processo, mas isso não significa que ele tenha controle do andamento. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios já alertou que o golpe não altera o trâmite do processo, que segue normalmente no sistema do tribunal.
Protocolo de verificação em 60 segundos
A melhor defesa é um procedimento simples e repetível, que você leitor, ou cliente, possa executar mesmo sob pressão. A primeira regra é não validar nada dentro daquela conversa. Se alguém escreve usando foto e nome do advogado, o caminho seguro é encerrar o contato e procurar o número oficial do escritório em fonte confiável (cartão, contrato, procuração, site oficial, perfil verificado, atendimento já utilizado anteriormente).
A confirmação deve ocorrer por ligação ou mensagem enviada por você para o canal oficial, nunca respondendo ao número suspeito. A segunda regra é confrontar o fato central: “a empresa foi citada?”, “houve sentença?”, “houve alvará?”. Se a narrativa promete pagamento quando o processo está em fase inicial, isso praticamente encerra a dúvida. O tribunal não “antecipa” vitória por WhatsApp.
A terceira regra é tratar videochamada e compartilhamento de tela como sinal de risco máximo. Mesmo quando existe pagamento legítimo, o procedimento não exige que o cliente compartilhe tela do aplicativo bancário, nem que cole códigos no Pix para “liberação”.
O que fazer se o leitor já enviou dados ou realizou etapas no aplicativo do banco
Em caso de já ter executado o procedimento e então percebeu a fraude, o tempo importa. Em caso de Pix, o Banco Central do Brasil orienta que a vítima registre o pedido de devolução no seu banco em até 80 dias quando se tratar de fraude, golpe ou crime, por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED).
Também existe o bloqueio cautelar, mecanismo pelo qual a instituição do recebedor pode bloquear os recursos por até 72 horas quando há suspeita de fraude, para análise e eventual devolução. Na prática, quanto antes a vítima comunica e formaliza a contestação, maior a chance de rastreio e medidas efetivas dentro do arranjo.
Além disso, é essencial preservar provas: prints da conversa, número do telefone, chave Pix, comprovantes, e registrar boletim de ocorrência. A própria Febraban recomenda guardar evidências e formalizar ocorrência em tentativa de golpe.
Como denunciar e proteger outras pessoas
A Ordem dos Advogados do Brasil lançou uma campanha nacional e uma plataforma de verificação/combate ao golpe do falso advogado, com orientação para denúncia em canal oficial. Para o leitor, isso cumpre dois papéis: ajudar a confirmar a identidade profissional e registrar a fraude para encaminhamento às instâncias competentes.
Também vale reforçar um ponto pedagógico: não existe “taxa de liberação” exigida por WhatsApp para pagamento judicial, e mensagens com pressão psicológica (“é agora ou perde”) são parte do golpe.
Aviso que vale deixar fixo no blog e nas redes do escritório
Um texto curto, claro e replicável costuma reduzir muito a incidência de vítimas:
“Criminosos têm usado indevidamente nome e imagem de advogados para anunciar falsas vitórias judiciais. O escritório não solicita extrato bancário por WhatsApp, não pede compartilhamento de tela, não solicita códigos e não orienta procedimentos no aplicativo do banco para ‘liberação de valores’. Em caso de dúvida, encerre o contato e fale conosco exclusivamente pelos canais oficiais.”
Conclusão
O golpe do falso advogado não é “azar do cliente”; é engenharia social sofisticada, apoiada em aparência de legitimidade. O antídoto é método: checar o canal, checar o andamento real e tratar videochamada/compartilhamento de tela como risco máximo. E, se a fraude aconteceu, agir rápido com o banco e com os instrumentos do Pix, especialmente MED e contestação, além do registro formal e preservação de evidências.
Se você recebeu mensagem dizendo que “ganhou a causa” e pediram dados bancários, videochamada ou qualquer passo no aplicativo do banco, não execute nada. Envie um print para o canal oficial do escritório e confirme a informação antes de prosseguir.
Referências:
Febraban faz alerta sobre o golpe do falso advogado
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